Na história de qualquer clube ou entidade, o seu patrimônio é um fator fundamental para sobrevivência. Alguns começam tendo tudo e terminam sem nada. Outros começam sem nada e depois conseguem tudo, como foi o caso do Santa Cruz.
Os rapazes que, no ano de 1914 fundaram a sociedade tricolor, não tinham nem dinheiro para comprar o material esportivo. A primeira crise financeira foi evitada com um murro de Alexandre Carvalho em cima da mesa, durante uma reunião. Alguém propôs gastar os únicos seis mil réis existentes em caixa, num caldo de cana elétrico que era a sensação da rapaziada, na época.
"O Santa Cruz nasceu e vai viver eternamente", disse ele, rejeitando com seu gesto a afrontosa proposta. Atos energéticos como esse foram constantes da agremiação do Arruda. Graças a eles, de geração em geração, o patrimônio coral foi se solidificando, crescendo, aumentando.
Atualmente, o Santa Cruz tem um estádio, o "José do Rego Maciel", mais conhecido por "Colosso do Arruda", considerado a maior praça futebolística de propriedade de um clube, em todo o Norte e Nordeste. E tem um Parque Aquático que é o orgulho de todos os seus associados, e um patrimônio físico cuja tendência é aumentar cada vez mais. Isso, sem considerar o patrimônio humano, tanto no aspecto futebolístico como no amador, que agradeceram e imortalizaram o clube, através desses longos anos.
CAMPO DO BALÃO
Mas, toda história tem o seu começo. E a do patrimônio do Santa Cruz, com lances emocionantes e dramáticos, começa no Campo do Balão, logo após a sua fundação. Durante muito tempo, os rapazes treinaram no campo do Derby e o primeiro campo oficial mesmo foi o de Afogados, em terreno onde foi construído, depois, o Quartel do Material de Intendência do Exército. Em seguida, foram para o campo da Encruzilhada, onde atualmente fica a Vila do Moinho. Até 1943, o futebol do Santa Cruz foi nômade. Não tinha local para treinamentos. Não havia sede. Sempre na dependência de favores de terceiros, da boa vontade dos outros. Não existe melhor prova de perseverança e de amor dos fundadores do clube e dos seus primeiros aficionados do que este desprendimento e sacrifício por amor a uma causa.
Mesmo sem "beira nem eira", os primeiros desportistas tricolores mantinham-se fiéis aos seus ideais de agrupamento clubístico. Por uma questão de sorte, as coisas tomariam rumo diferente: certo dia, em 1943, o Sr. Aristófanes de Andrade procurou seu amigo, dr. Gonçalo de Melo, na época presidente do Santa Cruz, para comunicar-lhe que o Centro Esportivo Tabajara havia encerrado suas atividades e colocar à sua disposição um campo na Rua das Moças, até então utilizado pela extinta agremiação. Coisas da vida. Morria um clube e outro se revigorava.
UMA QUESTÃO DE FIANÇA
Para o Santa Cruz tomar conta do campo da Rua das Moças, mediante um aluguel, eram exigidas duas providências: 1. assumir um débito do Tabajaras no valor de um mil cruzeiros na Casa do Atleta; 2. pagar o aluguel de cento e cinqüenta cruzeiros ao proprietário do terreno, sr. Artur Lundgren. O presidente Gonçalo de Melo não pensou duas vezes para fechar o negócio. Afinal, o campo era o melhor do subúrbio e cobiçado por todas as agremiações naquela época.
Tudo parecia muito fácil. Mas, aconteceu um imprevisto: o procurador do proprietário do terreno, sr. Santos, não aceitou o fiador apresentado e exigiu uma fiança de mil e oitocentos cruzeiros, correspondente a doze meses de aluguel. Era muito dinheiro. Houve um momento de desespero. Não havia condições de arranjá-lo. Outro milagre: José Fulgino de Melo, para cumprir a exigência, depositou na Caixa Econômica, através da caderneta n.18263, em conta caucionada, o dinheiro exigido. Assim, o Santa Cruz se estabelecia no terreno da Rua das Moças.
A PRIMEIRA SEDE
Até 1943, o Santa Cruz não possuía sede, outro grande problema para sua existência. Mas, com o aluguel do campo da Rua das Moças, houve necessidade de utilização da casa de n.34, muito modesta, para residência do roupeiro Raul, e para guardar o material esportivo. Provisoriamente, passaram a usar o imóvel como local para encontros e reuniões. Lá, foram guardados, também, taças e troféus e alguns móveis.
Um dia, o Sr. Wandenkolk Wanderley, que pleiteava um empréstimo para aquisição da casa 1285 da Av. Beberibe, pertencente ao Cel. José Cândido de Miranda, Procurou o chefe da Carteira Imobiliária da Caixa Econômica, sr. Aristófanes de Andrade. O desportista, então, sugeriu ao interessado no negócio a renunciar ao imóvel pretendido oferecendo-lhe uma casa na Estrada de Belém, muito mais valorizada e custando duas vezes mais do que a casa do Arruda. Assim fazendo, pensava em solucionar o problema da sede para o Santa Cruz. Aquela casa da Av. Beberibe, quase em frente ao campo, era o local ideal para isso.
Até que foi fácil a transação. Wandenkolk visitou a casa que lhe foi oferecida em troca, e logo gostou da sugestão oferecida. A Caixa Econômica financiava as duas. O presidente Gonçalo Melo levantou o empréstimo de trinta e oito mil cruzeiros, e com o resultado da primeira "campanha pró sede"realizada pelo benemérito Álvaro Ramos Leal, e o dinheiro para o negócio estava garantido.
SEDE PRÓPRIA
Assim, no dia 24 de novembro de 1943, o Santa Cruz deixava a modesta casa que lhe servira de sede própria, na casa da Av. Beberibe, n.1285 onde se encontra localizada até hoje.
Essa foi a primeira grande alegria na história do patrimônio físico do Santa Cruz. A sede social foi reconstruída, reformada e ampliada na gestão do presidente Edgar Beltrão, contando com a colaboração dos srs. Ferreira Leal e Agostinho Gomes.
Era o início de uma vida nova. Da formação de um patrimônio que se iniciava com a sede própria. Muitas outras lutas, várias campanhas, outros simbólicos murros, difíceis negócios e arriscados empreendimentos eram assumidos, para que, pedra sobre pedra, se efetivasse o lento processo de construção da grandeza patrimonial.